quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Dando um tempo no blog one more time

Carxs coleguinhas (se é que ainda existe alguém que lê esse blog);

Senta que la vem chororô, mimimi, desabafo, dramalhao mexicano, tpm, histeria, whatever... Mais uma vez este blog entrara em modo stand by por uns meses. Queria muito falar de musica, de Dom Quixote, do diario da Virginia Woolf, do Tchekhov, do Sartre, dos filmes dirigidos por mulheres, terminar o dossiê da Pizarnik, so que nao tenho tempo, vou atualizar minhas leituras no Goodreads e no Instagram apenas.
Estou trabalhando de domingo a domingo, sem folga, 64 h por semana, em dois empregos. Os dois trabalhos sao temporarios, estou seguindo o exemplo da formiga da fabula da Formiga e a Cigarra (ou o contrario, nao sei mais), trabalhando duro no verao para ter provisao no inverno, pois la estarei mais uma vez desempregada e isso me estressa.
Trabalhando ao extremo, obviamente fica dificil de procurar um emprego decente na area e impossivel estudar para um concurso, entrei em um circulo vicioso dificil de sair. O Museu da Civilizaçao fechou o centro de arquivos e todos arquivistas foram pra rua. Nas sociedades historicas so tem contrato temporario, porque nao tem dinheiro para manter um arquivista como funcionario. Outros orgaos do governo so pegam estagiarios (estagio aqui nao é remunerado), voluntarios ou terceirizados temporarios que custam bem menos que um funcionario publico. Gente de humanas sofre! Vou mandar meu CV para os detetives Mulder e Scully para tentar uma vaguinha no Arquivo X, também vou mandar para o Cold Case, parece que sao os unicos lugares que tem gente interessada em consultar arquivos LOL. 
Arquivos do Cold Case
O "capetalismo" me suga inteira, engole meu tempo, minhas energias, minha paz de espirito, meus sonhos, transforma-me em um robô ou em um zumbi. Nao vivo, so existo. Ando tao cansada que a unica coisa que me da prazer é deitar na cama e ficar olhando pro teto, inerte, no silêncio absoluto, naquela vibe que os italianos chamam de "dolce far niente".
Esta instabilidade profissional e financeira me obriga a emendar varios trabalhos temporarios um atras do outro, intercalados com desempregos, estou a 5 anos sem tirar férias, quando estou desempregada nao considero férias nem pausa, porque estou estressada enviando trocentos CVs e fazendo entrevistas. Nao gasto nenhum tostao neste periodo com medo de nao ter $ no tempo das vacas magras. Tudo isso faz com que minhas crises de ansiedade sejam mais frequentes e às vezes elas desencadeiam em depressao ou sindrome do pânico. Minha ultima deprê foi quando coloquei esse blog em stand by por um ano, mesmo assim eu tive que reagir, juntar os cacos para conseguir terminar o curso e a unica coisa que consegui com ele foi contrair uma divida de 10 anos para paga-lo, porque emprego na area que é bom, nada. Se para uma pessoa normal ja é dificil o ultimo semestre de um curso, imagine para quem é estrangeira e doente da cabeça.
Estou sem fazer terapia, porque nao tive tempo e nem money pra procurar um psi, ou seja, em caso de uma crise de pânico ou de depressao, serei encaminhada direto para emergência psiquiatrica. Até que nao seria nada mal ficar internada por alguns dias, seria o unico jeito de descansar um pouco. Isso que é chegar no fundo do poço, colegas! Quando você começa a achar que o hospital psiquiatrico é o melhor lugar para se estar. Hospital is the new hotel para tirar férias. 
Antes eu nao entendia porque ha tantos suicidios, tanta gente pirada e toxicomanos por essas bandas, hoje entendo muito bem. Haja valium e vodka para suportar tanta pressao! Todo esforço que a gente faz nunca é bom o suficiente, comecei a achar que sou burra, sinto-me insegura e com medo de errar a maior parte do tempo. 
Parece que cheguei em Wayward Pines, um lugar aparentemente perfeito, mas quando a gente passa a viver, as coisas vao ficando cada vez mais esquisitas, começa a dar uma agonia para fugir, mas nao consegue. E mesmo se conseguisse, fugir para onde nesta altura do campeonato? Eu gosto daqui, mas aqui nao gosta de mim. Muita gente que chegou na mesma época que eu ja fugiu e nao se arrependeu. Aqui é bom para quem é da area de turismo, da saude e de informatica. Nao é o meu caso.
Minha vida é o titulo deste blog, eu tento organizar o caos, mesmo sabendo que nao se organiza o caos, ele é sempre instavel, perturbado, ou seja, luto contra a maré. Eu tento buscar onde foi que eu errei, tenho a impressao que as coisas para mim acontecem sempre do jeito mais dificil, mais complicado e para os outros parece mais facil. Talvez nao seja facil para ninguém, talvez eles so fingem que esta tudo bem ou sabem lidar melhor com a situaçao, pois nao é possivel que eu seja tao azarada. Talvez eu escolhi a cidade errada, fiz o curso errado, fiz escolhas erradas, nasci errada e errante. 
Pode ser que eu seja pretensiosa e ambiciosa demais. Se eu me conformasse com um emprego em um supermercado por exemplo, poderia ficar la o resto da vida, recebendo um salario razoavel, teria o que mais preciso: estabilidade. So que infelizmente eu nao posso me conformar com uma coisa que seria insuportavel para mim, nao porque eu seja melhor que ninguém, longe disso! É que eu choraria todos os dias da minha vida fazendo isso, nao suporto ficar 20 min no mercado fazendo minhas proprias compras, muito menos passar o dia inteiro trabalhando. Eu prefiro morrer a fazer coisas que nao quero, que nao vejo sentido. Nao aguentaria passar o dia inteiro escaneando codigo de barras, empacotando os artigos em sacolas plasticas, sorrindo fake para os clientes e ainda tentar convecê-los a fazer o cartao de fidelidade. Sem falar que tem uns clientes osso duro de roer, as crianças birrentas que querem tudo e os pais nao compram nada. Cruzes! Que inferno! Ninguém merece. 
Eu queria muito ser uma ovelha obediente que aceita toda merda do mundo de bom grado, que se conforma com a vida como ela é, que se sujeita a todo tipo de afronta e humilhaçao sem pestanejar, que nao liga de ser capacho. A vida de gente assim é bem mais simples e mais facil, eles conseguem até ser felizes sem remédio. So que nasci ovelha negra, desculpe humanidade!
Sou imediatista, quero que tudo aconteça agora, no meu tempo, mas como diz meu colega: Du calme, Ana! ça va venir avec le temps. Quando me dizem para ter calma, ai que fico mais nervosa. Com tempo tudo se ajeita? Pode ser, mas o aluguel, as dividas nao esperam esse tempo chegar, voilà porque sou imediatista e desesperada.
Também é muita arrogância de minha parte querer ter um pingo de dignidade e ser fiel aos meus principios, ne c'est pas? Querer ter hora de almoço, férias, um trabalho em horario comercial, de segunda a sexta, vida social... Baixa a bola, dona Ana! "Seje, menas"! Quem sou eu para ter dignidade, confiança e orgulho proprio? Pobre nao tem isso nao. 
Nao é facil! Domingo saio meia-noite de um trampo e segunda-feira tenho que estar às 7h30 no outro. De sexta-feira trabalho das 7h30 à meia-noite, 17h de labuta em um unico dia, vida de chinês. Em um deles nao tem nem hora de almoço, a gente come um biscoitinho ou um chocolate ou uma fruta ao mesmo tempo que trabalha, porque the freak-show must go on. Tanto esforço e nem é pra ficar rica (antes fosse!), é apenas para manter as contas em dia e ter saldo na época do desemprego. 
Diferente do que Sartre disse, o inferno nao sao os outros, o inferno sou eu mesma, pois nunca me senti bem em lugar nenhum, durante toda minha vida sempre me senti deslocada e isso so vai piorando com o passar dos anos. Aquele sentimento que Sylvia Plath definiu muito bem: independente do lugar, sempre me sinto dentro de uma redoma de vidro tentando respirar. 
"porque onde quer que eu estivesse — fosse o convés de um navio, um café parisiense ou Bangcoc —, estaria sempre sob a mesma redoma de vidro, sendo lentamente cozida em meu próprio ar viciado (...) O ar da redoma me comprimia, e eu não conseguia me mover".
“Para a pessoa dentro da redoma de vidro, vazia e imóvel como um bebê morto, o mundo inteiro é um sonho ruim”

A letra da musica abaixo me define:


sábado, 30 de julho de 2016

Mulheres na direçao: Haifaa Al-Mansour (Arabia Saudita)

Haifaa Al-Mansour, primeira mulher cineasta da Arabia Saudita
Assisti ao filme O Sonho de Wadjda (2012), dirigido pela  cineasta Haifaa Al Mansour. Trata-se de uma menina de 10 anos que luta contra o patriarcado fundamentalista na Arabia Saudita. Nem vou escrever muito para nao deixar a emoçao falar no lugar da razao, porque o mundo esta longe de ser um lugar seguro as mulheres e isso me deprime.


O sonho de Wadjda era ter uma bicicleta, ela vai tentar juntar dinheiro para compra-la. Passa a vender pulserinhas na escola, mas a diretora confisca-as. Depois participa de um concurso de leitura do corao para ganhar o prêmio em dinheiro. O problema é que la mulher nao pode dirigir, muito menos andar de bicicleta, dizem que elas correm o risco de perder a virgindade ou de serem estéreis.
É muita opressao e pressao, mulher nao pode rir, o homem nao pode ouvir a voz de uma mulher, a mulher tem que se esconder quando vê um homem, tem que usar burka preta. Existe uma policia religiosa que fica de olho no que as pessoas vestem e como se comportam na rua, etc.
O pai dela deixa a mae porque ela tinha problemas para engravidar e quando conseguiu, nasceu uma menina, ou seja, nasceu a Wadjda. Entao ele casa com outra para poder ter filhos homens, pois so eles que herdam bens e fazem parte da genealogia da familia. Tem uma hora que a Wadjda escreve o nome dela na arvore genealogica do patriarcado. Yes, sista!
A mae dela faz de tudo pela familia, nao corta o cabelo porque o marido nao quer, fica fazendo chapinha porque ele gosta de cabelo liso, cozinha, se arruma para ele, mas para variar, ele é um babaca.
Wadjda gosta de tênis all star surrado, de correr com os meninos, de escutar musica, odeia portar o veu, odeia as oraçoes, odeia a obediência cega.
Recomendadissimo! Lembre-se: Nunca vote em politicos religiosos porque ninguém é obrigado a seguir uma religiao imposta. Estado laico sempre!

Minha lista "Mulheres na direçao" no Filmow ja tem 1747 filmes cadastrados e 178 assistidos até o momento.

Veja também:

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Hunger Makes Me a Modern Girl - de Carrie Brownstein (mémorias)

Esta foto minha foi publicada na pagina oficial Our Shared Shelf no Instagram

Este foi o livro escolhido no grupo Our Shared Shelf deste bimestre. Carrie conta sua historia desde à infância até os dias atuais e relata como é fazer parte do grupo de punk rock feminino Sleater-Kinney. Vou deixar abaixo alguns fragmentos do livro. Li na versao e-book Kobo, $18,00 CAN.

Seu pai era um advogado e para ter uma "boa reputaçao" casou-se, teve filhos, passou mais da metade da vida escondendo que era gay e so assumiu depois dos 50 anos. A mae tinha problema de aneroxia e precisou ser internada.

Let our parents be anorexic and gay! That shit is for teenagers. My sister and I would be the adults. We would be conventional, conservative even. Guns, God, country, and my contrarian, reactionary self. (This phase lasted about ten minutes.)

A reaçao da mae dele ao descobrir sua homossexualidade:
When my father came out to his mom, my grandmother said, “You waited for your father to die, why couldn’t you have waited for me to die?” I knew then that I never want to contribute to the corrosiveness of wanting someone to stay hidden.

Perguntas de jornalistas para uma banda feminina:
Why are you in an all-female band? Why do you not have a bass player? What does it feel like to be a woman in a band? I realized that those questions—that talking about the experience—had become part of the experience itself. More than anything, I feel that this meta-discourse, talking about the talk, is part of how it feels to be a “woman in music” (or a “woman in anything,” for that matter—politics, business, comedy, power). There is the music itself, and then there is the ongoing dialogue about how it feels. The two seem to be intertwined and also inescapable. To this day, because I know no other way of being or feeling, I don’t know what it’s like to be a woman in a band—I have nothing else to compare it to. But I will say that I doubt in the history of rock journalism and writing any man has been asked, “Why are you in an all-male band?”

Os seguranças nao sabiam que elas eram a banda que ia se apresentar, achavam que eram groupies tentando invadir o backstage:
One evening we were mistaken by a backstage security guard as groupies and nearly not let into our own dressing room. When we took the stage that night, Corin said, “We’re not here to fuck the band, we are the band.” 

Musica de mulher x musica de homem
Musicians, especially those who are women, are often dogged by the assumption that they are singing from a personal perspective. Perhaps it is a carelessness on the audience’s part, or an entrenched cultural assumption that the female experience can merely encompass the known, the domestic, the ordinary. When a woman sings a nonpersonal narrative, listeners and watchers must acknowledge that she’s not performing as herself, and if she’s not performing as herself, then it’s not her who is wooing us, loving us. We don’t get to have her because we don’t know exactly who she is. An audience doesn’t want female distance, they want female openness and accessibility, familiarity that validates femaleness. Persona for a man is equated with power; persona for a woman makes her less of a woman, more distant and unknowable, and thus threatening. When men sing personal songs, they seem sensitive and evolved; when women sing personal songs, they are inviting and vulnerable, or worse, catty and tiresome.

Preocupaçao da midia com a aparência do grupo:


while engaging in the camaraderie of a music festival in England called the Bowlie Weekender, when we found a note calling us “ladymen” affixed to the bulletin board on our chalet. Or attempting to talk about our music and the process of writing an album in an interview, then to read the article and see that the writer focused on what we were wearing or how we looked, discussed our gender, or made a sexist comment in the story.
This was the same time as the Spice Girls and “Girl Power.” We knew there was a version of feminism that was being dumbed down and marketed, sloganized, and diminished. We wanted to draw deeper, more divisive lines. We wanted to separate ourselves from anything benign or pretty.
We were never trying to deny our femaleness. Instead, we wanted to expand the notion of what it means to be female. The notion of “female” should be so sprawling and complex that it becomes divorced from gender itself. 

mulher sozinha x homem sozinho
Here I was again without a family, my only identity a loner. A male loner is a hero of sorts, a rebel, an iconoclast, but the same is not true of a female loner. There is no virility in a woman’s autonomy, there is only pity. 

Claro que me apaixonei pela Carrie e pela banda. Recomendo a leitura e as musicas. O livro é recheado de fotos fofas. Tem uma parte que ela colocou o que criticos de musicas falaram da banda em grandes revistas e jornais, é de assustar como o mundo ainda esta tao despreparado para lidar com a mulher, nao so na musica, mas em todas as areas, elas têm que ouvir cada absurdo... Ela também descreveu como teve que lidar com a crise de ansiedade, depressao e sindrome do pânico. 
Fica aqui o som das meninas.



sexta-feira, 22 de julho de 2016

Mulheres na direçao: Paula van der Oest (Holanda)


Assisti a dois filmes da diretora Paula van der Oest: "Lucia de B." e "Black Butterflies"

Lucia de B. (2014)



Baseado em fatos reais, narra a historia de uma enfermeira holandesa que foi condenada injustamente à prisao perpétua por de ter cometido 7 assassinatos no hospital em que trabalhava, sendo as vitimas bebês e idosos. 
Os advogados dos acusaçaos nao tinham nenhuma prova concreta que ligava-a às mortes, tentaram incrimina-la de acordo com seu perfil psicologico e suas atitudes, pois ela era uma pessoa muito reservada, nao comia com as outras enfermeiras, teve uma infância muito dificil, sua mae obrigava-a a se prostituir, escrevia umas coisas estranhas em seu diario, lia livros sobre psicopatas e baseado neste seu historico, apos a morte de um bebê na UTI e um laudo errôneo da médica, tudo levou a crer que o bebê tinha tido uma overdose de remédios, quando na verdade ele tinha morrido por complicaçoes no seu estado clinico. As outras mortes que quiseram incrimina-la aconteceram em horarios ou dias que ela nem estava la. Como se defender com a imprensa massacrando e ja condenando? Filmaço! Pra quem gosta de filmes sobre erros judiciarios, fica a dica!


Black Butterflies (2011)


É um filme sobre a vida da poetisa sul-africana, Ingrid Jonker. Vivia em uma familia conservadora, seu pai era membro do parlamento, deputado do Partido Nacional, a favor do Apartheid e presidente da comissao de censura. Apos um casamento fracassado, ela ficou sozinha com sua filha, nao tinha como se manter financeiramente, passou a se auto-destruir, sofria assédio psicologico do seu pai que odiava tanto o seu comportamento como sua poesia. Assim como toda mulher que se rebelava na época, foi internada em um hospital psiquiatrico e tratada com eletrochoques, acaba se suicidando aos 31 anos.
Um de seus poemas "Die Kind" (abaixo) foi lido por Nelson Mandela em sua posse. Preciso urgente encontrar o livro dela.


The child is not dead  

The child is not dead
The child lifts his fists against his mother
Who shouts Afrika ! shouts the breath
Of freedom and the veld
In the locations of the cordoned heart
The child lifts his fists against his father
in the march of the generations
who shouts Afrika ! shout the breath
of righteousness and blood
in the streets of his embattled pride
The child is not dead not at Langa nor at Nyanga
not at Orlando nor at Sharpeville
nor at the police station at Philippi
where he lies with a bullet through his brain
The child is the dark shadow of the soldiers
on guard with rifles Saracens and batons
the child is present at all assemblies and law-givings
the child peers through the windows of houses and into the hearts of mothers
this child who just wanted to play in the sun at Nyanga is everywhere
the child grown to a man treks through all Africa
the child grown into a giant journeys through the whole world
Without a pass
Veja também:

quarta-feira, 20 de julho de 2016

#LeiaMulheres: Carson McCullers

O meu primeiro contato com a Carson McCullers foi através do livro "A Balada do Café Triste". Eu fiquei tao embasbacada e chocada que nao consegui nem fazer resenha aqui no blog na época. Até entao eu nao conhecia o estilo literario americano Southern Gothic, é a coisa mais estranha e genial que ja li. As historias se passam em cidadezinhas pobres e esquecidas no fim do mundo, os personagens parecem que sairam do American Horror Show, gente completamente esquisita, tanto na aparência como nas atitudes, alguns agem como animais selvagens, outros sao completamente indefesos. Eu e minha estranha mania de torcer para algum deles se dar bem, mas o livro é como a vida, tem gente que faz o seu melhor e nunca vai ser recompensado, nunca vai ter paz, nunca vai chegar a lugar nenhum.
Além de "A Balada do Café Triste", terminei de ler o "O Coraçao é um Caçador Solitario" para a leitura em conjunto do "Clube dos Classicos Vivos" e ainda estou chocada, fiquei muito mal esta semana pensando nestes personagens e em mim mesma, pois também tive grandes expectativas nesta e vida e devido às circunstâncias vi cada uma delas desmoronarem como um castelo de cartas, hoje posso me considerar um ser frustrado e conformado e isso me assusta. 
Vou tentar um resumo de cada um dos livros que li:

A Balada do Café Triste

"É uma terra lúgubre. Pouco mais tem do que a fábrica de algodão, as casas de dois quartos onde vivem os operários, algumas árvores, a igreja com duas janelas de vitral e uma feia rua central que não chega aos cem metros de comprimento. Aos sábados, os caseiros das herdades vizinhas vão ali para fazer compras e dar um bocado à língua. Fora disso, é um lugar solitário, melancólico, como tudo o que fica longe e separado do mundo."

Eis a personagem feminina mais esquisita da literatura, a Amelia Evans:
Era uma mulher alta, morena, com ossos e músculos de homem; usava o cabelo curto, penteado para trás; no seu rosto trigueiro notava-se qualquer coisa de fixo, de abstrato. Poderia ter sido bela se não fosse um pouco estrábica. Pretendentes não lhe faltavam. Ela, porém, preferia a solidão, indiferente ao amor do sexo oposto. O casamento que contraiu foi diferente de todos os que se celebraram no país - estranho e perigoso enlace, que durou apenas dez dias e deixou uma impressão de escândalo e surpresa. Exceto quanto a esse matrimônio extravagante, o resto da sua vida foi de criatura solitária. Chegava a passar noites inteiras no telheiro dos pântanos, vestida de macacao e botas de borracha, a vigiar o fogo brando do alambique.
Miss Amelia prosperava com tudo o que se pode fazer com as mãos. Para a terra vizinha vendia chouriços e salsichas. Nos dias bonitos de outono moía sorgo, e o xarope que saía das suas dornas era dourado e aromático. Perita em carpintaria, construíra em quinze dias uma retrete atrás do armazém. Com os seus semelhantes é que ela não estava à vontade. As pessoas, a não ser que sejam pobres de espírito ou muito doentes, não podem ser agarradas com as mãos e transformadas de um dia para o outro em qualquer coisa mais valiosa e rentável.
Miss Amelia gostava de receitar e de fazer tratamentos. Nas estantes acumulavam-se frascos de remédios e coisas relativas à medicina. Junto da parede havia um banco para os pacientes se sentarem. Ela era capaz de suturar as feridas com uma agulha posta previamente ao lume, de forma a não as infectar. Para as queimaduras tinha unguentos refrescantes, e para as afecções não localizadas possuía drogas que compunha segundo receitas misteriosas: aliviavam bastante os intestinos, mas não se devia prescrevê-las às crianças, por causa das convulsões que provocavam; essas usufruíam de certa mezinha especial, de bom paladar e bastante suave. Enfim, no conjunto, Miss Amelia era considerada boa doutora. As suas mãos, apesar de grossas e ossudas, faziam contatos leves. Não lhe faltava também imaginação para recorrer a dezenas de remédios diferentes. Não hesitava perante tratamentos perigosos e extraordinários: por mais terrível que fosse a enfermidade, aquela mulher não temia empreender a cura. Só com uma exceção: não sabia o que fazer às doenças das mulheres. Bastava-lhe ouvir mencionar estas três palavras para que o seu rosto se sombreasse de embaraço; ela esfregava o pescoço de encontro à gola da camisa, ou as galochas uma na outra, exatamente como procederia uma criança envergonhada. Noutras matérias, porém, o povo não se enganava se confiasse nela. E nunca exigia pagamento. Não admira que os doentes acorressem à sua casa.

Ela largou o marido apos 10 dias de casamento, ele era um brucutu, bandido e membro da Ku-Klux-Klan, chamado Marvin Macy. Em seguida, apaixonou-se pelo "primo" Lymon, um anao e corcunda que apareceu na casa dela.
"Há de ser por este motivo que a maior parte de nós prefere amar a ser amado. Quase todos querem ser o agente ativo. E a pura verdade é esta: no íntimo, o fato de ser amado torna-se intolerável para muitos. O amado teme e odeia o amante, e pela melhor das razões. O amante pretende esbulhar o amado, ainda que isto lhe cause sofrimento."

Acontece uma reviravolta fenomenal e tragica nesta historia que me deixou boquiaberta por dias. Nem posso falar mais nada para nao dar spoiler. Apenas leiam! O livro tem apenas 60 paginas.

O Coraçao é um Caçador Solitario


Este é o primeiro romance que autora escreveu aos 23 anos. A trama acontece numa cidadezinha no Sul dos Estados Unidos, na década de 30. É um livro que aborda varios assuntos: ideologias politicas (capitalismo fascista e comunismo), desigualdade social, feminismo, sexualidade (homoafetividade, bissexualidade e pedofilia) e racismo (segregaçao racial americana). Eu vou mencionar estes assuntos ao falar de cada personagem. As citaçoes deixarei em francês, idioma do livro que li, apenas para meu arquivo pessoal.

Singer

No primeiro capitulo temos a historia de dois surdos-mudos que moram juntos e andam de braços dados pela rua. Sao eles: John Singer, um homem misterioso e Spiros Antonapoulos, um grego obeso e meio retardado. Singer era obcecado pelo grego e nao suportava viver separado dele, pensava nele todos os dias. Acontece um problema e o grego é preso e depois internado. Sempre que podia, Singer ia visita-lo, levava presentes e comida, fazia de tudo para agrada-lo (homoafetividade). 
"Son visage prit l'expression de paix mélancolique qu'on voit aux gens très tristes ou très sages. Il continuait cependant d'arpenter les rues de la ville silencieux et solitaire."
Apos a partida do grego, ele passa a frequentar o Café New York, onde ele faz suas refeiçoes diarias e conhece pessoas frustradas e de coraçao solitario como ele, sao cheias de sonhos e de ideologias que nao as levam a lugar nenhum. Todos gostavam dele, mesmo sendo surdo-mudo, era o que mais escutava e dava atençao aos outros. É um paradoxo interessante. 

Briff Brannon

É o dono do café, observa os clientes, tem pena de alguns, principalmente dos doentes e mutilados, fica viuvo e se apaixona pela Mick, uma menina de 12 anos, mas jamais vai dizer isso a ela. Temos aqui um caso de sentimento pedofilo, a partir do momento que ela cresce e parece mais mulher, ele perde o interesse.
"Et Mick, l'amour qui durant ces derniers mois s'était se étrangement logé dans son coeur. Cet amour était-il mort aussi? Oui. C'était fini. Elle avait grandi. Ses manières brusques et enfantines avait presque disparu. Et à la place, on sentait poindre en elle une féminité délicate."

Jake Blount

Aparece no café, embebeda-se, nunca paga a conta, dispara a falar sozinho, mas ninguém da atençao, mudava de sotaque e de vocabulario, ora falava como analfabeto e ora falava como um professor. Sua aparência produzia um efeito cômico. Ele achava que tinha o dever de falar a verdade aos operarios e a todos os que eram explorados pelo sistema, mas ninguém ouvia e ainda zombava dele. Era como Sao Joao Batista, a voz que clama no deserto, um revolucionario incompreendido. Isso o deixava frustrado e cada vez mais pirado. Porém seus discursos eram bonitos.
"L'Amérique lui apparaît comme une maison de fous. Il voit les hommes obligés de voler leurs frères pour vivre. Il voit les enfants crever de faim et les femmes travailler soixante heures par semaine pour gagner de quoi manger. Il voit une année entière des chômeurs et des milliards de dollars gaspillés, des milliers de kilomètres de terres à l'abandon. Il voit venir la guerre et il voit à force de souffrir, les gens deviennent méchants e laids, et quelque chose meurt en eux. Mais surtout il voit que le système entier est bâti sur un mensonge. Et bien que ça soit clair comme le jour - les ignorans vivent avec ce mensonge si longtemps qu'ils ne peuvent pas s'en apercevoit."
"Jésus, par exemple. Il était des nôtres. Il savait. Quand il a dit qu'il était plus facile à un chameau de passer par le chas d'une aiguille qu'à un riche d'entrer dans le royaume de Dieu - il savait fichtrement bien ce qu'il disait. Mais regarde comme l'Église a traité Jésus depuis deux mille ans. Ce qu'elle a fait de lui. Sa manière d'utiliser chaque mot qu'il a prononcé à leurs ignobles fins. Jésus serait jete en prison de nos jours. Jésusnferait partie de ceux qui savent vraiment. Moi et Jésus, on serait assis l,un en face de l'autre à table, je Le regarderais et Il me me regarderait et chacun saurait que l'autre sait. Moi, Jésus et Karl Marx on s'assoirait à une table..."
"Ils se sont battus pour que dans ce pays on soit tous libres et égaux. Ah! Et ça signifiait que tous les hommes étaient égaux devant la nature - avec des chances égales. Ça ne signifiait pas que 20% des gens étaient libres de dépouiller les 80% autres de leurs moyens d'existence. Ça ne signifiait pas qu'un riche ait le droit d'exploiter dix mille pauvres jusqu'au trognon pour s'enrichir. Ça ne signifiait pas que les tyrans étaient libres de fourrer ce pays dans un tel pétrin que des millions de gens sont prêts à escroquer, mentir ou se couper le bras droit - rien que pour gagner de quoi croûter trois fois par jour et coincer la bulle. Ils ont fait du mot liberté un blasphème."
"Le monde est plein de cruauté et de mal. Ah! Les 3/4 du globe sont en état de guerre ou d'opression. Les menteurs et les monstres sont unis, mais les hommes que savent sont isolés et sans défense."
"Ces industries ont déjà sucé le sang at amoulli les os du peuple. L'époque de l'expansion, c'est terminé. Le système de la democratie capitaliste est tout entier pourri et corrompu. Il ne reste que deux voies: le fascisme ou une réforme permanente, radicalement révolutionnaire."

Doutor Benedict Mady Copeland

Na década de 30, os negros eram proibidos de frequentar alguns lugares publicos e estabelecimentos por questoes raciais, mas o Dr. Copeland era negro e formou-se em Medicina, lutava pela igualdade racial, era vegetariano, leu mais livros que qualquer um branco da cidade, gostava de Spinoza, Shakespeare e Karl Marx, era ateu, ia de casa em casa educar o povo, promovia discursos sobre controle de natalidade e distribuia contraceptivos, dizia: "Nao precisamos de mais crianças na terra, mas de mais oportunidades para aqueles que ja nasceram". Teve 4 filhos e tinha um projeto de vida para eles: um seria cientista renomado, outro seria professor dos negros, outro seria advogado e a menina seria médica das mulheres, mas nenhum seguiu os conselhos dele, preferiram ficar do lado da mae que era religiosa, iam para igreja com ela, tiveram subempregos, foram submetidos a todo tipo de humilhaçao e nao herdaram o orgulho e nem a ambiçao paterna para o desgosto do mesmo. Ele sonhava em fazer uma passeata com mais de mil negros até Washington. Na vida real, o Pr. Martin Luther King realizou o sonho do Dr. Copeland.
Ele faz um discurso sobre Marx na festa de Natal:

 Fala da escravidao dos negros:


"Comment les morts peuvent-ils être vraiment morts quand ils continuent à vivre dans l'âme de ceux qui restent?"

Mick

A Mick era uma menina muito inteligente, tirava notas boas na escola, pensava muito, nao acreditava em Deus, amava musica, sempre parava para ouvir algo tocando no radio, sonhava em ser regente de uma orquestra e de criar uma sinfonia, queria comprar um piano. Porém ela começou a trabalhar na farmacia para ajudar na renda familiar, saiu da escola e seus sonhos foram por agua abaixo. Ela jogava com a bissexualidade, às vezes ela se vestia de menino, às vezes era feminina. Era o alter-ego da autora também.
Tanto que quando ela sonhava em ser regente, ela poderia vestir um smoking masculino ou um vestido de paetê no dia da apresentaçao. Dizia para seu amigo Harry que o ajudaria lutar contra o fascismo na Europa, pois ela nao se importava de cortar o cabelo e se vestir de soldado, ninguém nem ia notar que ela era mulher. Seus sentimentos também mistos. Ela sonhava com a Celeste, uma menina que estudava com ela, mas nunca conversaram. Gostou do Buck, da moça que vendia bilhete de loteria, da professora do 6° ano, do Singer e do Harry com que teve sua primeira experiência sexual e disse para ele nunca iria se casar.
Tinha um discurso feminista sobre a desigualdade entre homens e mulheres no mercado de trabalho.

"Certaines musiques étaient trop intimes pour être chantées dans une maison bourrée de gens. C'était drole, aussi, à quel point on pouvait être seul dans une maison pleine à craquer. Mick se creusa la tête pour trouver un endroit bien secret où elle étudierait tranquillement cette musique. Mais elle avait beau réfléchir longuement, elle savait depuis le début que l'endroit idéal n'existait pas".
Este livro peguei na biblioteca, tem 466 paginas e dei 5/5 no Goodreads. Muito bom! Lerei tudo o que essa mulher escreveu. A vida dela foi tao bizarra quanto a de seus personagens. É isso!