domingo, 2 de agosto de 2009

Cinema francês: Falas do filme Vivre sa vie de Godard

Vivre sa vie é um manual de como se prostituir na França (explicação curta e grossa), fala das leis que de uma certa protegem essas mulheres, onde podem ou não trabalhar e o que levou Nana a prostituição, mas a parte que mais me toca é quando ela em um bar, encontra um velho desconhecido e começa a querer entender sobre a vida.


Place du châtelet - O desconhecido - Nana (Anna Karina) faz filosofia sem saber

Você vem bastante aqui?
- Não, às vezes. Hoje, por sorte
Por que você lê?
- É meu trabalho
É engraçado de repente eu não sei o que dizer; isso acontece muito comigo. Eu sei o que quero dizer. Eu reflito sobre o que quero dizer, mas no momento de dizer eu não consigo
-Sim, claro. Você leu os Três Mosqueteiros?
Eu vi o filme. Por quê?
-Porque nele, Porthos, isso se passa na verdade no Vinte Anos Depois. Porthos, o grande, o forte, um pouco besta, ele nunca pensou em sua vida, compreende? Então, uma vez ele tem de implantar uma bomba numa adega, para explodí-la. Ele o faz. Ele coloca a bomba, acende-a, e sai correndo, naturalmente, mas de golpe, ele começa a pensar...
Ele pensa no que?
-Ele se pergunta como ele pode colocar um pé após o outro,você já deve ter pensado sobre isso também. E então ele pára de correr. Ele não pode mais, não pode avançar. Tudo explode, a adega cai sobre ele. Ele a segura com seus ombros, ele é forte, mas depois de um dia, ou dois ele cede, e morre. A primeira vez que ele pensa, ele morre
Por que me conta essa história?
- Sem razão, só por falar
E por que a gente precisa sempre falar?
- Muitas vezes devíamos nos calar,viver em silêncio. Quanto mais fala-se, menos as palavras significam
Talvez, mas como se pode?
- Eu não sei.
Eu acho que não podemos viver sem falar. Então é isso, eu gostaria de viver sem falar
- Sim, isso seria bom, não?
É como se não amássemos mais
- Mas não é possível, nunca vai ser.
Mas por quê? As palavras deviam exprimir exatamente o que queremos dizer. Elas nos traem?
- Mas nós as traímos também, nós devíamos poder dizer o que queremos como já foi feito com a boa escrita. É mesmo extraordinário que um homem como Platão, a gente pode ainda compreender, a gente compreende. Ainda sim ele escreveu em Grego, há 2500 anos. Ninguém realmente sabe a língua daquela época, ao menos exatamente, mas ainda sim passa alguma coisa, então nós devemos poder nos expressar e nós precisamos.
E por que devemos nos exprimir? Para se compreender?
- Nós precisamos pensar, e para pensar, é preciso falar, não há outro jeito de pensar.E para comunicar, deve-se falar. É a vida
Sim, mas ao mesmo tempo é muito difícil. Eu acho que a vida devia ser fácil. Você sabe, a sua história dos Três Mosqueteiros pode ser muito boa, mas é terrível.
- Sim, mas é uma indicação. Eu acredito que aprendemos a falar bem quando renunciamos à vida por algum tempo. É quase... O preço
Então, falar é mortal?
- Falar é quase uma ressureição em relação à vida. Quando falamos é uma outra vida de quando não falamos. Então, para viver falando deve-se passar pela morte da vida sem falar. Eu talvez não esteja sendo claro, mas há uma certa regra ascética que te impede de falar bem até olharmos a vida com desapego
Mas não se pode viver a vida com... Eu não sei, com desapego
- Sim, mas nós balanceamos, é por isso que devemos passar do silêncio às palavras. Nós balançamos entre os dois porque é o movimento da vida
Da vida cotidiana nós nos elevamos a uma vida que chamamos de superior é a vida do pensamento, mas essa vida pressupõe a morte da vida cotidiana, a vida demais elementar.
Mas então pensar e falar se parecem?
-Eu acredito. Platão o disse; é uma idéia antiga. Nós não podemos distinguir do pensamento o que é o pensamento e as palavras que o exprimem. Analisando a consciência, você não consegue separar o momento de pensar das palavras.
Falando, então, a gente arrisca mentir?
- Sim, porque mentiras são também parte de nossa busca. Há pouca diferença entre erro e mentira. Não quero dizer mentiras comuns como eu prometo ir amanhã, mas não vou porque não queria, entende? Esses são truques, mas uma mentira sutil é pouco distante de um erro, a gente procura e não consegue achar as palavras certas.
É por isso que você não conseguia saber o que ia dizer.
- Você tinha medo de não achar a palavra certa. E eu acho que é isso
Sim, mas como ter certeza de ter encontrado a palavra certa?
- Deve-se trabalhar. É necessário um esforço. Deve-se falar num modo que é certo, não machuque, diga o que há para ser dito, faça o que tem de fazer sem machucar, nem ferir.
Sim, um deve tentar ser de boa fé.
- Uma vez alguém me disse "A verdade está em tudo, mesmo no erro"
Isso é verdade.
- Isso não foi visto na França no séc XVII, eles achavam que podiam evitar o erro e ainda mais que isso, que podia-se viver na verdade diretamente.
Creio que não seja possível.
-Por isso há Kant, Hegel, a filosofia alemã: para nos conduzir à vida e nos fazer ver que devemos passar pelo erro para chegar na verdade
O que você pensa do amor?
- Leibnitz introduziu o contingente, verdades contingentes e verdades necessárias fazem a vida cotidiana
Aos poucos chegamos na filosofia alemã onde pensamos, na vida, com os erros da vida, com as servitudes da vida. E deve-se lidar com isso, é verdade
O amor não deve ser a única verdade?
- Mas para isso, o amor deveria ser sempre verdadeiro
Você conhece alguem que sabe de cara quem ele ama?
- Não é verdade. Quando você tem vinte anos não sabe o que ama
Você sabe migalhas, se agarra só a sua experiência. Você diz "eu amo isso", é sempre uma mistura, mas para ser constituido inteiramente daquilo que se ama, é preciso a maturidade.Isso significa buscar. E é essa a verdade da vida. É por isso que o amor é uma solução, na condição que seja verdadeiro.

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