sexta-feira, 17 de junho de 2011

A ópera dos três vinténs - Bertold Brecht

Brecht foi um dramaturgo, encenador e poeta alemão, recusou o teatro dramático aristotélico e defendeu o teatro épico e os seus princípios de distanciação. Propôs uma nova escrita dramática, um novo cenário e uma nova técnica de interpretação do ator.
Brecht é uma época. Uma época tumultuosa de rebeldia e de protesto. Refletem-se, em suas obras, os problemas fundamentais do mundo atual: a luta pela emancipação social da humanidade. Brecht tem plena consciência do que pretende fazer. Usa o materialismo dialético da maneira mais sábia para a revolução estética que se dispôs a promover na poesia e no teatro. [Edmundo Moniz]
Meu primeiro contato com Brecht foi lendo a "Antologia Poética". No teatro, assisti a alguns espetáculos da Cia. do Latão, fiquei vislumbrada com a peça "O círculo de giz caucasiano", depois assisti "Mãe coragem", com a atriz Maria Alice Vergueiro, para mim, uma das maiores damas do teatro brasileiro. Assisti a um ensaio do "Voo sobre o oceano" e "A peça didática de Baden-Baden sobre o acordo". Também assisti a um documentário sobre a vida e obra dele. Deu para perceber que curto muito tudo isso. Agora quero a coleção de livros "Bertold Brecht - Teatro Completo, em 12 volumes", tenho só o volume 3, de onde escolhi o texto para colocar aqui no Desafio Literário.
A ópera dos três vinténs é uma peça inspirada na “Ópera do Mendigo” de John Gay e também inspirou Chico Buarque a escrever "A ópera do Malandro"
Personagens: Macheath, ou Mac Navalha, um anti-herói, ladrão perigoso e procurado pela justiça, bígamo e frequentador de puteiros, tem uma gangue de ladrões que o ajuda fazer o trabalho sujo.
Jonathan Peachum, burguês, dono da firma "O amigo do mendigo", casado com Célia Peachum e pai de Polly, a filha tratada a leite ninho, como uma boneca, mas se apaixona pelo bandido.
Brown - supremo chefe da polícia de Londres, é amigo do Mac Navalha, aceita suborno.

[Peachum] A lei foi feita única e exclusivamente para explorar aqueles que não a entendem ou que, por pura necessidade, não podem cumpri-la. E quem quiser receber sua parte nesta exploração tem que agir rigorosamente dentro da lei.

O policial Brown é amigo do bandido, mas quando o pai da mocinha pede a ele para prender o bandido, ameaçando a sua reputação, ele trai o bandido.
O bandido também procura refúgio no puteiro, mas as prostitutas aceitam o suborno do pai da menina e entregam o Mac Navalha. Ou seja, ele depende de todo mundo, todo mundo acaba traindo-o pelas costas, mas ele sempre dá um jeito de ter todos na mão.
O teatro de Brecht tira os mocinhos do papel de protagonistas, coloca os bandidos, não tem intenção de fazer um teatro moralista, mostra como a sociedade é hipócrita na cara dura e o final não se pode esperar a redenção ou arrependimento, afinal, uma vez malandro, sempre malandro.
Um dos três finais desta peça, a rainha perdoa os crimes de Mac Navalha:

[Brown] Por motivo de coroação, Sua Majestade, a Rainha, ordena que o capitão Mactheath seja imediatamente libertado. Aplausos entusiásticos. Ao mesmo tempo, ele será elevado à categoria de nobre hereditário - júbilo - e receberá o castelo de Marmarel, bem como uma pensão de dez mil libras até o fim de sua vida.

A arte imita a vida, sabemos que os maiores ladrões são políticos e empresários, sonegadores de impostos, enriquecem ilicitamente e ainda ganham todo conforto. É um das peças de cunho político-social, que denuncia uma sociedade sem ética, sem princípios e amoral, que protege o bandido e humilha as pessoas que trabalham honestamente e não têm direito a nada. É tão atual, não?

Para terminar de forma mais alegrinha, segue abaixo a letra da música "Viver do amor", do Chico Buarque, feita para a Ópera do Malandro.


Viver do Amor Chico Buarque
1ª versão (Para a peça Ópera do malandro 1977-1978)

Pra se viver do amor
Há que esquecer o amor
Há que se amar
Sem amar
Sem prazer
E com despertador
como um funcionário
Há que penar no amor
Pra se ganhar no amor
Há que apanhar
E sangrar
E suar
Como um trabalhador
Ai, o amor
Jamais foi um sonho
O amor, eu bem sei
Já provei
E é um veneno medonho
É por isso que se há de entender
Que o amor não é um ócio
E compreender
Que o amor não é um vício
O amor é sacrifício
O amor é sacerdócio
Amar
É iluminar a dor
como um missionário




3 comentários:

  1. Atual e com um olhar acuradíssimo da realidade. Bacana! Bjs

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  2. Aliás, tens tirado de letra esse desafio, hein? =D

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